Ele não estava apto ao amor; não por agora.
E aquele era apenas mais um dia que terminaria como os outros.
Mas quis o destino que velhos amigos o tirassem de casa, naquele sábado que por contexto já seria feliz.
Reunidos conversavam como antes, recordavam os tempos de mamadeira brindando com cerveja.
E eis que de repente em mais uma entre mesas ao redor, olhares se cruzam, se fixam.
Um respiro profundo, um início de sorriso gracioso e um baixar de olhos encantador.
Ele não imaginava. Não era possível. Como caber tanta intensidade em um tempo tão curto.
Antes que daquela noite nascesse um novo dia, eles já dividiam a mesa.
Baianos e gaúchas conversavam como se fossem amigos de décadas.
Bem verdade que por ele, ainda continuariam a apenas se olharem por horas.
Porém, os amigos, percebendo “o momento”, fizeram em poucos minutos a união dos mais de três mil quilômetros que separam Salvador de Porto Alegre.
Enquanto o garçom continuava a trazer cerveja, o sábado já era domingo e casais baiúchos se formavam entre os amigos dele e as dela.
Mas os dois continuavam ali apenas a conversar, olho no olho, dividindo gostos parecidos e poetizando cada um a sua terra natal.
Os belos cabelos negros, o olhar cerrado, o cigarro e os quase 30 anos de idade davam a ela um ar de quem tinha muito a contar perto de alguém que rompeu há pouco a barreira dos 20.
Eles riam dos amigos e das situações provocadas pelas 26 garrafas sobre a mesa. Mas eles estão sóbrios, sóbrios de um sentimento que a priori pareciam recusar.
Mas em pouco mais um hora era impossível deter. Era maior que ambos e assim foi.
Depois, eles voltaram a se ver no final daquele mesmo dia que viram nascer, e depois no outro e no outro, neste ela o relembrou
-É o último!
Ele quis não acreditar, ela havia dito, no começo, ainda na mesa do bar. Ele cego, preferiu não ouvir.
O seguinte ao outro do outro foi o da despedida, se viram apenas no aeroporto. Sem melancolia, sem fotos juntos, sem juras de amor, sem contatos.
Por algumas horas foram um do outro e só. Acordaram juntos. Viveram uma só história.
Em toda a vida ela jamais falara “ouxe”, mas nesses quatro dias aprendeu com ele, e disse tantos quanto os “barbaridade” carregados no erre, que ele pronunciou.
Mas tudo chegou ao fim. Acabou quando o Salvador/São Paulo/Porto Alegre levantou vôo. Talvez não se vejam nunca mais. Se quiser o destino, trate ele próprio de colocá-los novamente no mesmo caminho. Escolheram assim. O porque talvez nem eles saibam explicar.
Só queriam viver “o momento”. A paixão intensa, tênue, tensa. E conseguiram.
Terão uma história de entrega, de doação de um ao outro para um dia contar.
Ele sai do aeroporto sozinho e vai até o ponto de ônibus, pensativo, dúbio, porém feliz. Leva consigo apenas três imagens de resolução baixa, com sorrisos de começo de manhã, daquela que por pouco mais de cem horas, foi por ele a mais amada entre todas.