A noite de João
O frio da barriga que começou desde o momento em que entrei no ônibus com a intenção de assistir a João Gilberto a priori parecia inusitado. Porque? cheguei a me perguntar. Pouco antes das nove da noite – horário marcado para o início do show lá estávamos nós, a ‘patota’ que dormiu na fila e aguardou por quatorze horas até a abertura das bilheterias estava lá no saguão do Teatro Castro Alves.
Lá ao lado dos governadores da Bahia, Jaques Wagner e de Sergipe, Marcelo Déda. Ao lado do ministro da Cultura, Juca Ferreira, de Daniela Mercury e outras celebridades, mas todas ofuscadas. Obviamente que chegaram ali com a intenção de serem coadjuvantes, mas nem era preciso querer, estariam de qualquer forma condenadas a esta sorte. Já passava das dez quando a terceira leva de palmas tomou o TCA, demonstravam muito mais ansiedade do que impaciência. Pouco minutos depois vem o primeiro toque da campainha, o frio na barriga aperta, dá uma vontade de ir ao banho, no caminho até lá o segundo toque. Tensão. O coração bate mais acelerado. Já na volta o derradeiro toque. O rapaz do teatro avisa: Já vai começar! A tensão também estava em seus olhos. Por nós passa correndo o secretário de cultura do estado à procura de alguém. Vai começar repetia Márcio Meirelles quase sussurrando.
Dez horas e cinco minutos, a voz do locutor mestre de cerimônias ecoa sobre o teatro. “Solicitamos que desliguem os celulares, esse inconveniente deve ser evitado. Especialmente neste espetáculo” frisa. A platéia ri. Era chegada a hora. O locutor comanda o momento “tenho a honra de convidar ao palco um dos maiores patrimônios da música brasileira: João Gilberto”

São dez horas e oito minutos. Como que vindo do nada ele surge, lentamente, violão na mão direita, olha a platéia antes de se sentar e a reverência três vezes com a cabeça, como os japoneses. Pronto. Agora era com ele e só.
Então senta, bota a mão direita sobre a perna direita e, ainda sob aplausos, começa a se desculpar imediatamente pelo atraso. Mais aplausos, sob os quais ele começa a tocar uns acordes – mas interrompe tudo ainda no começo, para reclamar do microfone.
“Desculpem, mas eu pedi para não ser esse microfone, porque esse tem um negócio assim, desnecessário”, reclama, enfatizando bem o “eu pedi”
Enquanto João tenta arrumar o equipamento a tensão toma conta do teatro. Um japonês de passo sorrateiro entra no palco e ajeita o microfone. João apresenta o técnico de som de forma simples: é o japonês.
Agora sim. João solta a voz, bem baixinho…”você já foi a Bahia nega? não? então vá..” A beleza de ver Caymmi por João enchia os olhos, os ouvidos. Era como se o próprio Caymmi estivesse ali em uma daquelas cadeiras balançando as pernas e revirando os olhos como ninguém para assistir João. Logo na seqüência ele conta uma história de Caymmi. “Ele foi fazer um show fora ai o rapaz falou pra ele o horário do ensaio, e ele respondeu ‘não, não, eu já vim ensaiado da Bahia’”. Por fim João repete uma parte da música…”você já foi a Bahia nega? não? então vá..” com uma voz e acordes diferentes do que havia acabado de interpretar, como se imitasse o velho amigo. Após o acorde final os aplausos demoram a chegar, como se o público estivesse paralisado com o encantamento do momento, mas ele mesmo faz questão de nos trazer a este plano e avisa, “pronto”. Como quem diz, acabei agora aplaudam. O que fazer se não aplaudir?
Em seguida João é a representação da modéstia: ”Olha, eu canto por esse mundo todo, mas a Bahia é diferente”. Ele observa a platéia e continua “eu fico até nervoso”. O orgulho pela terra emociona e os aplausos quase levam o TCA abaixo.
João é só bom humor, “hoje estou metido a contar histórias”. Ela cita mais uma vez o prazer de tocar na Bahia, a emoção de reencontrar amigos e familiares. Fala de uma gravação que ouviu de Edson Diniz e da esposa Maria Eugênia, amigos presentes na platéia. “Ela é psiquiatra – diz se referindo a Maria Eugênia – … Aliás, eu vou até endireitar minha cabeça…” diz o brincalhão João, colocando a mão na cabeça já sem muitos fios de cabelo.
João relembra Caymmi outras tantas vezes, brinca com a platéia, relembra as histórias de um primo, comenta algo a cada final de música, enquanto afina o violão para a seguinte. Em certo momento pede que o volume do violão seja elevado. ”Não, porque o som aí é um e aqui é outro. Quer dizer, é o mesmo, mas…” A platéia diz não se incomodar, ele escuta: “de lá do fundo já disseram ‘tá bom!’”. Compara o retorno com os alto-falantes “aquele que tem ali no Campo Grande, perto do Hotel da Bahia, quando dá seis horas o rapaz começa”, mas sentencia com um “Alto falante é lindo”. E assim o volume aumenta.
Durante “Meditação” de Tom Jobim e Newton Mendonça, acessos coletivos de tosse em vários pontos da platéia deixam João confuso. Ao fim da música, ele diz sorrindo: “cantei um verso que não era, de tanto escutar uma tosse…” . O público aplaude. Ele continua: “se eu soubesse tinha trazido um xarope”. Era um João só da Bahia, brincalhão, engraçado. Ainda neste intervalo de canções alguém grita: “Aumenta o som!”
João não escuta e pergunta: “Como é?”. Ninguém diz nada. Ele pede: “Como é? Fale…”. E o cidadão incomodado diz: “aumenta o som!”. Ele responde que o “o som é lá no controle. O volume não é assim não. Senão não existiria a trompa, fom fom fom. A orquestra faz tchá tchá tchá – imitando um maestro – enquanto a trompa está lá fazendo: fom fom fom…”.
Após a explicação João volta ao violão, mas antes de recomeçar repete com um olhar perdido, como um “mas veja você” o pedido do homem desconhecido: “Aumenta o som…”. E depois de mais uma canção cantada quase que como um sussurro, mostra que não se esqueceu do homem sem rosto que pedira o aumento do volume: ”Desculpe, amigo. Eu vou treinar cantar bem alto!”.
João ainda reclama do ventinho enquanto nos presenteia com “Wave”, “Bahia com H”, “Estate”, “Desafinado” e tantas outras. Em “Preconceito”, ele faz corações amigos baterem mais fortes e debocharem da situação. “”Não maltrate o seu pretinho que lhe faz tanto carinho e no fundo é bom rapaz. Você vem de um palacete, eu nasci num barracão…Eu vou fazer serenata, eu vou cantar minha dor. Meu samba vai, diz a ela que coração não tem cor.” E depois mais uma vez relembra Caymmi, agora de uma forma inesperada, colocando em transe mentes e corações, é “Acalanto”. Ele promete que não vai se emocionar. Ao ritmo de “boi, boi, boi, boi da cara preta pega essa menina que tem medo de careta” um filme passa pela cabeça de cada ser ali presente. Inclusive a dele. É divino, como de outro mundo. O mundo só de João. E agora invadido por nós, nobres intrusos. De onde quer que esteja Dorival sorri de forma mansa e sente orgulho do amigo, da terra natal, do legado.
Meia noite e dois e o João termina o show. Muitos aplausos. Ele deixa o palco mas ainda sob os ininterruptos aplausos retorna. São mais cinco músicas, entre elas mais uma de Dorival, o grande homenageado da noite. Mas é com “Garota de Ipanema” que ele fecha a noite e celebra a Bossa Nova. O público agora já descontraído e até barulhento acompanha. Pronto. Meia noite e meia e João agradece com as três reverências de cabeça e se retira, erra a saída na primeira tentativa, mas anda um pouco mais no imenso palco onde por 2horas e meia ele foi gigante e desaparece. Era o fim. As luzes se ascendem. O frio na barriga estava justificado.
A noite dormida na fila dos ingressos não “valeu a pena” ela não subtraiu, ela somou.
O calvário purificador antes do milagre. Não é um show – nem um som – para leigos. Poucos iniciados têm a oportunidade de serem encantados. A purificação se faz necessária.
*Trechos de Katherine Funke e Júlio Vellame. Fotos: Fernando Vivas



Deixe uma resposta